Clipe do single "Golden Era" brinca com ideia de passado da cena eletrônica
Por Pedro Silva
Simon Reynolds disse em seu último livro que o momento atual na música pode ser caracterizado como "retromania". Nova belle époque em que os ecos do passado são requentados com um pouco de melancolia, saudosismo de uma época às vezes nem tão distante pra alguns. Exemplo? Já nesses últimos anos convivem nas pistas disco, house e pós-punk — coexistência de pelo menos três décadas de música a que muitos de nós só tiveram acesso graças ao boom de compartilhamentos na rede...
Passemos a um caso recente: o single de "Golden Era" de David Morales. Não é preciso apresentar um cara como Morales: se você vive no planeta Terra e zanzou por alguma pista nos últimos 25 anos, conhece ao menos um trabalho desse dj e produtor que ajudou a definir os caminhos da música eletrônica nos anos 90. (Se não está ligando o nome à música, corre pro YouTube já!).
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Depois de um bom tempo lançando remixes mais do mesmo, ele volta ao lado de ninguém menos que Róisín Murphy, a ex-Moloko — uma das bandas mais legais dos anos 90 (e que à época foi logo associada com o trip hop inglês, embora tenham transcendido o gênero). Desde seu último álbum, Overpowered, do fim de 2007, Róisín só tem trabalhado em colaborações e singles avulsos, como Momma’s Place, de sonoridade retrô, ecoando Bomb the Bass e Culture Beat, e cuja letra inteligente sugeria crítica ao fenômeno Lady Gaga.
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"Golden Era" vagou pela internet mais de um mês atrás em podcast de Morales e o vídeo apareceu agorinha, no fim de maio.
Só o título da música já dá pra associar com a faceta saudosista e melancólica, mas o vídeo não fica atrás. O preto e branco dá força ao saudosismo e ecoa uma época marcada por videoclipes nessa linha estética (quem lembra de Vogue da Madonna, Killer/Papa was a Rolling Stone do George Michael ou Being Boring dos Pet Shop Boys. A "era de ouro" do título é materializada num clube-cabaré, nalgum lugar do passado, identificado pela letra com o epíteto de "dias de glória". É como se Morales dissesse que a era de ouro da dance music já está bem distante.
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E não é por acaso que a cena atual da música eletrônica é alfinetada num trecho do clipe em que um sujeito quebra um vinil e anuncia ao dj o futuro das pistas como local de exibicionismo e não de culto à música, que foi o que fez uma geração de houseiros (negros, brancos, gays, héteros).
“Retromania” ou mera alfinetada? Dá uma olhadinha no vídeo, que merece atenção: