Microsoft office per tablet android https://pilloleitalia.net/ tassi di ipoteca rifinanziare wells fargo
 

pilloleitalia.net più alta qualità pillole

MÚSICA

18/02/2016

To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, não é o disco do ano, mas é o melhor da década

Por Rodrigo Ramos

Kendrick Lamar soube a hora certa para lançar seu terceiro disco de estúdio. To Pimp a Butterfly é uma narrativa sobre a vida do rapper, porém não serve apenas como diário pessoal. Do início ao fim dos 88 minutos de duração, o LP é um atestado de insatisfação, de luta interior e exterior, um relato do racismo, do preconceito e da violência com os negros. Apesar de o calendário marcar 2016, o embate racial continua em alta. Por mais que em países como o Brasil ainda exista gente que diga que preconceito não existe, na prática ele continua gritante, a exemplo dos vários casos de abuso policial e até de mortes de negros inocentes pelas mãos dos oficiais nos EUA – não que faltem exemplos do tipo por aqui também. Lamar fala sobre a fama e a exploração que vem com ela, e as formas como tentou escapar das amarras do dinheiro, tentando balancear a sua vida pessoal com o deslumbre causado pela exposição. Nem sempre teve sucesso, como ele descreve na emocionante “u”, sobre a ausência dele enquanto a irmã engravidava e um amigo morrera. “Abusando o meu poder cheio de ressentimento, ressentimento que se transformou em uma depressão profunda, me encontrei gritando em um quarto de hotel” é uma frase recorrente em várias faixas ao longo do álbum.

 

 

Enquanto luta com o seu interior e recusa a ser alcovitado pelo dinheiro e a fama, Lamar parte em busca de Deus e tenta fugir de Lucy (apelido carinhoso para Lúcifer). Em paralelo, o rapper preocupa-se em estabelecer a gravidade da questão da racial, inclusive declarando guerra àqueles que não são negros na explícita e fantástica “The Blacker the Berry”. “Você me odeia, não é? Você odeia o meu povo, seu plano é exterminar minha cultura. Você é mau pra caralho, eu quero que você saiba que eu sou um macaco com orgulho”, dispara Lamar.

To Pimp a Butterfly é um dos álbuns definitivos do gênero, trazendo à tona assuntos difíceis de serem engolidos pela grande massa, espinhosos. Diferente do trabalho anterior, este não faz a mínima questão de agradar o público em geral. Com influências de funk e jazz, e uma mãozinha de Flying Lotus na produção, Lamar transforma-se no maior representante do gênero, com um disco denso e urgente. Cru, poético e realista, o disco não é o melhor do ano, mas sim de toda a década.

 

Grammy 2016

Apesar de ter sido o grande vencedor da 58ª edição do Grammy Awards, maior premiação da indústria fonográfica norte-americana, os cinco troféus de Lamar vieram laurear, parcialmente, um disco brilhante e que reflete a cultura negra estadunidense. O problema foi vê-lo sendo derrotado por Taylor Swift. Com 26 anos, a cantora ex-country e atualmente pop já conquistou dois prêmios de disco do ano na premiação. Com canções que falam de tretas com Katy Perry, de partir corações e ter o coração partido, além de pura diversão, 1989 é o clássico disco pop de sucesso instantâneo, com uma porrada de produtores por trás (incluindo Max Martin, o rei dos #1 hits da Billboard) e que é ótimo no sentido de entretenimento, o que não é desmérito. Porém, a grande marca do álbum é colocar vários singles no topo das paradas e vender mais de 6 milhões de cópias nos EUA. Não é pouca coisa, óbvio. Chega a ser impressionante. Porém, em termos de relevância e herança cultural, o que 1989 deixa para nós? Nesse sentido, álbuns de Britney Spears (mesmo que esta não consiga cantar sem playback) são tão relevantes quanto o mais recente de Swift, apesar de menos premiado. Um sucesso em vendas e hits instantâneos.

 

 

Sob a mesma ótica, no que 1989 é melhor do que Teenage Dream, de Perry, também indicado ao Grammy de álbum do ano? Nada. O álbum de Swift é um sucesso de vendas. Ele não precisava e tampouco merecia o maior prêmio da indústria. Ironicamente, um dos cinco troféus ganhos por Lamar foi na colaboração com a cantora, por conta do clipe de “Bad Blood”, eleito o videoclipe do ano.

Mesmo não tendo vencido o troféu de álbum do ano, levando pra casa os prêmios dedicados ao rap e ao hip-hop, Lamar foi o vencedor moral da premiação. Honrando os temas tratados em To Pimp a Butterfly, ele foi o responsável pela melhor e mais impactante apresentação do Grammy. Ele cantou duas faixas do álbum, “The Blacker the Berry” e “Alright”, além de uma faixa inédita. Na performance, ele iniciou criticando a superpopulação carcerária nos Estados Unidos, em especial a grande fatia dessa população sendo formada por negros, e ainda fez menção ao clipe alternativo de “They Don’t Care About Us”, de Michael Jackson, em seu vestuário. O vídeo de MJ, por sinal, já fazia a mesma crítica em 1995 e o problema permanece.

 

 

Depois, o rapper performou em meio a uma tribo indígena. Para finalizar, ele cantou em frente ao telão, que exibia um mapa que trazia escrito “Compton”. Assista AQUI.

A apresentação representa todas as qualidades presentes no álbum e evidencia a relevância de esses temas serem abordados em pleno 2016. No entanto, em uma premiação onde os brancos costumeiramente são mais reconhecidos (lembram de 2014, quando Macklemore & Ryan Lewis conquistaram três dos quatro troféus das categorias de rap/hip-hop, incluindo melhor álbum de rap, derrubando o próprio Lamar, Jay-Z, Drake e Kanye West?), era de se esperar que o álbum que mais tinha a dizer, exaltava a cultura negra tanto nas letras quanto nas inspirações musicais, criticava a sociedade e todo o racismo embutido nas pessoas e nas instituições, perderia para a queridinha do pop, branca e campeã de vendas.

O que fica evidente é que a diversidade continua sendo um grande problema e as pessoas têm relutância em aceitar isso como um fato. Favorito a vencer o prêmio de álbum do ano, especialmente por várias listas e críticos que consideram To Pimp a Butterfly um álbum nada menos do que extraordinário, a apresentação de Lamar não desceu redondo na goela de muitos estadunidenses, da mesma forma que os brancos, especialmente políticos extremistas e canais de TV como a Fox News, não receberam bem o fato de Beyoncé finalmente abraçar a sua cor (que é negra, por sinal) e criticar a polícia, evidenciar a cultura da sua raça e também homenagear MJ em sua participação no show do intervalo do Super Bowl 50, o que gerou até uma esquete pontual do Saturday Night Live sobre o fato. Veja AQUI.

Apesar das críticas de extremistas e ausência do devido reconhecimento da indústria, o que importa é que as palavras de Lamar – e até de Beyoncé, quem diria – estão sendo ouvidas e isso importa. Se antes as vozes revolucionárias do cotidiano dos negros eram ignoradas ou não ecoavam, o cenário está sendo jogado na cara dos racistas estadunidenses e de todo o planeta. Esse tipo de influência que Lamar conquistou com seu último trabalho não tem preço. Por isso To Pimp a Butterfly é um disco que será lembrado pela relevância social e cultural, e também como um dos melhores álbuns dos primeiros anos deste século.

 

 

 

 


blog comments powered by Disqus


2016

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Julho
Setembro
Novembro

2015

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Outubro
Novembro
Dezembro

2014

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Dezembro

2013

Janeiro
Fevereiro
Março
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro

2012

Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro





Política de Privacidade | Sobre | Anuncie | Contato | Copyright © 2017 culture-se - Todos os Direitos Reservados.