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LITERATURA21/04/2011 09:33:46O Rei dos PássarosCulture-se apresenta tradução inédita do ensaio de Flannery O´ConnorPor Juergen Cannes Quando eu tinha cinco anos, tive uma experiência que marcou minha vida. Pathé News mandou um fotógrafo de Nova Iorque para Savannah para tirar a foto de uma de minhas galinhas. Essa galinha, uma Cochin Bantam amarela, tinha a particularidade de ser capaz de andar tanto para frente quanto para trás. Sua fama se espalhou através da imprensa, e quando ela alcançou a atenção do Pathé News, presumi que não havia mais lugar algum onde pudesse ir, para frente ou para trás. Pouco tempo depois ela morreu, como agora parece apropriado.
Se coloco esta informação no início de um artigo sobre pavões, é porque sempre me questionam do porquê de criá-los, e não tenho uma resposta curta ou racional. Desde aquele dia com o fotógrafo comecei a colecionar aves. O que havia sido apenas um leve interesse tornou-se uma paixão, uma busca. Eu tinha que ter mais e mais galinhas. Dava preferência àquelas com um olho verde e outro laranja ou com pescoços excessivamente longos e cristas curvadas. Eu queria uma com três patas ou três asas mas nada do tipo apareceu. Debrucei-me sobre a fotografia de um galo que havia sobrevivido trinta dias sem sua cabeça, no livro de Robert Ripley, Believe It or Not,; mas eu não tinha um temperamento científico. Sabia costurar e comecei a fazer roupas para as galinhas. Uma bantam cinza chamada Coronel Eggbert usou um casaco de piqué branco com colarinho de renda e dois botões nas costas. Aparentemente o Pathé News nunca ouviu a respeito de minhas outras galinhas; nunca mandaram outro fotógrafo. Minha busca, ou o que quer que realmente fosse, acabou em pavões. Instinto, não conhecimento, me guiou até eles. Nunca tinha visto ou escutado algum. Apesar de ter um bando de faisões, codornas, um bando de perus, dezessete gansos, um grupo de marrecos Mallard, três Sedosas do Japão, duas Polonesas cristadas, e várias galinhas resultantes da cruza entre essas últimas e a Rhode Island Red, senti um vazio. Eu sabia que o pavão havia sido o pássaro de Hera, esposa de Zeus, mas desde aqueles tempos ele provavelmente haveria de ter descido para a terra – o Market Bulletin da Flórida anunciava pavões de três anos a sessenta e cinco dólares o par. Li esses anúncios discretamente por alguns anos, até que um dia, em que resolvi aproveitar as oportunidades, circulei um anúncio no Bulletin e passei-o a minha mãe. Anunciava um pavão macho, uma fêmea e quatro pavões-filhotes de sete semanas de vida. “Vou encomendá-los para mim,” eu disse. Minha mãe leu o anúncio. “Essas coisas não comem flores?” ela perguntou.
“Vão comer Startena como o resto,” eu disse.
Os pavões chegaram de Eustis, Flórida, pela Railway Express em um agradável dia de Outubro. Quando minha mãe e eu chegamos à estação, o engradado de madeira estava na plataforma e de uma de suas extremidades pronunciava-se um longo pescoço, azul-royal, e uma cabeça cristada. A linha branca acima e abaixo de cada olho dava a cabeça investigadora uma expressão de compostura alerta. Me perguntei se esse pássaro, acostumado a desfilar pelas alamedas alaranjadas da Flórida, iria prontamente ajustar-se a uma fazenda leiteira da Geórgia. Saltei do carro e fui para frente. A cabeça recolheu-se. Em casa soltamos o bando em uma capoeira tampada. O homem que me vendeu os pássaros havia escrito que eu deveria mantê-los confinados de uma semana a dez dias e depois soltá-los ao anoitecer no local onde quisesse que eles descansassem; a partir de então eles retornariam toda noite para o mesmo local de descanso. Ele também havia me avisado que o macho não teria a plumagem completa da cauda quando chegasse; o pavão troca sua cauda no fim do verão e não a recupera inteiramente até depois do Natal. Assim que os pássaros foram retirados da caixa transportadora, sentei comecei a olhar para eles. Tenho olhado para eles desde então, de um lugar para o outro, sempre com o mesmo encantamento reverente da primeira vez; ainda que sempre, eu acho, tenha sido capaz de manter uma visão equilibrada e uma atitude imparcial. O pavão que eu havia comprado não tinha nada remotamente semelhante a uma cauda, mas se portava não apenas como se tivesse um trem atrás de si, como também uma comitiva para atendê-lo. Naquele primeiro encontro, meu problema era que havia tanto para se olhar que meu foco movia-se constantemente do pavão para a fêmea para quatro pavõezinhos, enquanto eles, à exceção de que me evitavam o quanto podiam, não faziam nada que indicasse saberem de minha presença. Com o passar dos anos a atitude deles em relação a mim não se tornou mais generosa. Se eu apareço com comida, eles se dignam, quando não há outra maneira, a comer de minha mão; se seu apareço sem comida, sou apenas um objeto qualquer. Se me refiro a eles como “meus pavões”, o pronome tem fins legais, nada mais. Sou o lacaio, esperando por sinais ou reclamações de qualquer bicho de plumas que deseje alguma coisa. Quando primeiro desencaixotei esses pássaros, disse em meu frenesi: “Eu quero muitos deles para que toda vez que eu saia pela porta, dê de cara com um.” Agora toda vez que saio pela porta, quatro ou cinco passam por mim – e dão-me o mais desanimado sinal de reconhecimento. Nove anos se passaram desde que meus primeiros pavões chegaram. Tenho quarenta bicos para alimentar. Para uma ave que cresce para ter uma beleza tão excepcional, o pavão começa a vida com uma nada auspiciosa aparência. O pavão-bebê tem a cor daquelas censuráveis mariposas grandes que flutuam ao redor dos bicos de luz nas noites de verão. Seus únicos traços distintos são os olhos, de um cinza luminoso, e uma crista marrom que começa a brotar de trás de sua cabeça quando atinge dez dias. Essa crista parece primeiro com a antena de um inseto, depois com um cocar de Índio norte-americano. Em seis semanas manchas verdes aparecem no pescoço, e em mais algumas semanas o macho pode ser distinguido da fêmea por suas costas sarapintadas. As costas da fêmea gradativamente desbotam para um cinza uniforme e sua aparência torna-se rapidamente o que será para sempre. Nunca achei a pavoa sem atrativos, mesmo que falte a ela uma longa cauda ou qualquer decoração significativa. Uma ou duas vezes até achei-a mais atraente que o macho, mais sutil e refinada; mas esses momentos de ousadia passam. A plumagem do macho necessita de dois anos para atingir seu padrão, e pelo resto da vida esse pássaro agirá como se fosse ele mesmo o autor do desenho. Pelos seus primeiros dois anos ele pode parecer ter sido criado a partir de um saco de pano por uma mão sem imaginação. Durante seu primeiro ano ele tem o peito amarelado, costas sarapintadas, pescoço verde como o da mãe, e uma curta cauda cinza. Durante seu segundo ano ele tem o peito preto, seu nobre pescoço azul, as costas lentamente tornando-se verdes e douradas como irão permanecer; mas ainda nada de cauda longa. Em seu terceiro ano ele atinge sua maioridade e adquire sua cauda. Pelo resto de sua vida – e um pavão pode viver até os trinta e cinco anos – ele não terá nada melhor para fazer do que cuidá-la, dobrá-la e desdobrá-la, dançar para frente e para tráscom ela expandida, gritar quando pisarem-na, e arqueá-la cuidadosamente ao passar por uma poça. Nem toda parte do pavão é deslumbrante de se olhar, mesmo quando na plenitude pós-crescimento. As plumas de suas asas superiores são raiadas de preto e branco e parecem ter sido emprestadas por uma galinha Rock Barrada; as plumas do final de suas asas têm cor de barro; suas patas são compridas, finas, e cor de ferro; seus pés são grandes; e ele parece estar usando as calças curtas agora tão adotadas pelos farristas no verão. Elas prolongam-se para baixo, amareladas e macias, no que parece ser um colete azul. Não seria surpresa se alguém encontrasse um relógio de bolso dependurado dali, mas ninguém encontra. Analisando a aparência do pavão enquanto mantém a cauda recolhida, acho as partes desproporcionais em relação ao todo. A verdade é que com a cauda recolhida, nada além de seu porte o salva de ser alvo de risadas. Com sua cauda expandida, ele inspira uma gama de emoções, mas ainda tenho que escutar risadas. A reação usual é o silêncio, ao menos por um tempo. O macho abre sua cauda balançando-se violentamente até que ela seja gradualmente elevada formando um arco ao seu redor. Então, antes que qualquer um tenha a chance de vê-lo, ele move-se de maneira a ficar de costas para o espectador. Alguns consideram tal comportamento como um insulto, outros como um capricho. Eu sugiro significar apenas que o pavão fica igualmente satisfeito com qualquer das visões que se tenha dele. Desde que tenho criado pavões, tenho sido visitada pelo menos uma vez por ano por crianças estudantes da primeira série, que aprendem vivendo. Estou acostumada a ouvi-los falando em coro enquanto o pavão se balança de lá para cá, “Oh, olhe a roupa de baixo dele!”. Esta “roupa de baixo” é uma cauda firme, cinza, erguida para dar suporte à cauda grande, e por baixo dela há algo como uma esponja de maquiagem de plumas negras, que seria adequada para uma mulher realmente majestosa – uma Cleópatra ou uma Climnestra – retocar o pó-de-arroz em seu nariz. Uma vez que o pavão tenha exibido suas costas, o espectador normalmente começa a caminhar à sua volta para vê-lo de frente; mas o pavão continuará a virar não permitindo uma visão frontal de si. O que se deve fazer então é ficar parado e esperar até que o agrade virar-se. Quando lhe for conveniente, o pavão encarará você. Então você verá em um arco verde e bronze à sua volta uma galáxia de sóis circundados por halos, um galáxia para contemplação. Este é o momento quando a maioria das pessoas fica em silêncio. “Amém! Amém!” uma vez clamou uma mulher negra quando isso aconteceu, e tenho ouvido muitos comentários semelhantes durante este momento que expõe a inadequação da linguagem humana. Algumas pessoas assobiam; outras poucas, ao menos uma vez, fazem silêncio. Um motorista que levava um carregamento de feno em sua camionete e encontrou um pavão atravessando à sua frente no meio da estrada gritou: “Dá uma olhada nesse filho da mãe!” e brecou forçando parada até esfrangalhar seus freios. Nunca soube de um pavão empertigado que se movesse uns poucos centímetros que fosse por causa de uma camionete ou trator ou automóvel. Cabe ao veículo sair do caminho. Pavão meu nenhum jamais foi atropelado, apesar de que um ano um deles perdeu um dos pés na ceifeira. Muitas pessoas, eu descobri, são congenitamente incapazes de apreciar a visão de um pavão. Uma ou duas vezes fui perguntada para que o pavão “serve” – uma pergunta que não recebe resposta minha porque não merece resposta alguma. A companhia telefônica mandou um técnico um dia para consertar nosso telefone. Depois de terminado o trabalho, o homem, um sujeito grande de expressão suspeita, metade escondida por um capacete amarelo, ficou matando tempo, tentando bajular um pavão que o observava escorar-se. Ele queria acrescentar essa experiência a um grande número de outras que aparentemente tinha vivido. “Vamos lá parceiro,” ele disse, “coloque o show na estrada, ora bolas, vamos lá, se anima, se anima.” O pavão, é claro, não deu a menor atenção. “O que se passa com ele?” o homem perguntou. “Nada se passa com ele”, eu disse. “Ele vai levantar a cauda quando tiver vontade. Tudo que você precisa fazer é esperar.” O homem espreitou o pavão, andando agachado à sua volta por uns quinze minutos; então, enfastiado, voltou para sua camionete e arrancou. O pássaro sacudiu-se e sua cauda floresceu ao seu redor. “Ele está fazendo!” eu gritei. “Hei, espere! Ele está fazendo!” O homem desviou a camionete de volta justo enquanto o pavão virava-se para encará-lo. A exibição foi perfeita. O pássaro virou-se ligeiramente para a direita e pequenos planetas flutuaram em bronze, então virou ligeiramente para a esquerda e eles flutuaram em verde. Fui até a camionete para ver qual o efeito daquela visão sobre o homem. Ele estava fitando o pavão com rígida concentração, como se estivesse tentando ler letras miúdas impressas à distância. Em um segundo o pavão baixou sua cauda e foi embora andando altivamente. “Então, o que achou disso?” perguntei. “Nunca vi pernas tão feias,” o homem disse. “Aposto que esse patife podia ganhar uma corrida contra um ônibus.” Algumas pessoas são genuinamente afetadas pela visão de um pavão, mesmo com a cauda recolhida, mas não se importam em admiti-lo; outras parecem provocadas por ela. Talvez suspeitem que o pássaro tenha formado uma opinião desfavorável a respeito delas. O pavão em si é um digno e cuidadoso investigador. Visitantes à nossa casa não são recebidos por latidos de cães que correm para baixo das cercas da entrada, são recebidos por gritos agudos de pavões cujos pescoços azuis e cabeças cristadas surgem detrás de tufos de grama, despontam de arbustos, e deslizam para baixo, de cima do telhado para onde haviam voado, talvez por causa da vista. Um dia, um dos meus saiu debaixo dos arbustos de um pequeno bosque e foi para frente inspecionar um carro cheio de gente que havia ido até lá para comprar um bezerro. Um velho e cinco ou seis crianças de cabelos claros e descalças se amontoavam para sair pela parte traseira do carro conforme o pássaro se aproximava. Colocando as vistas sobre ele pararam seus passos e o fitaram, para encontrar sua figura superior bloqueando o caminho. Houve silêncio enquanto o pássaro os observava, sua cabeça moveu-se para trás em seu mais majestoso ângulo, sua cauda dobrada brilhando atrás de si sob a luz do sol. “Q’ué aquele troço?” um dos garotinhos perguntou finalmente com voz rabugenta. O velho havia saído do carro e contemplava o pavão com olhar pasmo de reconhecimento. “Eu num via um desses desde o tempo do meu vovô,” ele disse, tirando respeitosamente o chapéu da cabeça. “O pessoal custumava tê eles, mas num tem mais não.” “Q’ué isso?” perguntou novamente a criança com o mesmo tom de antes. “Ô criançada,” o velho disse, “esse é o rei dos pássaros!” As crianças receberam a informação em silêncio. Depois de um minuto saltaram de volta para o carro e continuaram a fitar o pavão de lá, com expressões irritadas, como se não tivessem gostado de perceber a verdade do velho. O pavão se empenha realmente em suas exibições mais no verão e na primavera quando tem sua cauda com plumagem completa para fazê-lo. Geralmente começa logo após o café da manhã, exibe-se por horas a fio, desiste quando o calor do dia aumenta, e recomeça no final da tarde. Cada macho tem seu local favorito onde faz sua performance todos os dias na esperança de atrair alguma fêmea de passagem; mas se encontrei alguém indiferente à exibição do pavão, além do homem da companhia telefônica, foi a pavoa. Ela raramente vira um dos olhos para ele. O macho, cauda erguida em um arco cintilante à sua volta, vira-se para cá e para lá, e com as plumas cor de barro de suas asas tocando o chão, dança para frente e para trás, pescoço curvado, bico aberto, olhos brilhando. Enquanto isso a fêmea cuida de suas coisas, diligentemente perscrutando o chão como se qualquer inseto na grama fosse muito mais importante que o desvelado mapa do universo que flutua nas proximidades. Algumas pessoas têm a ideia de que apenas o pavão macho expande sua cauda e de que ele o faz somente quando na presença da fêmea. Não é verdade. O pavão poucas horas saído do ovo expandirá sua cauda – ela terá o tamanho aproximadamente de uma unha do dedão – e irá exibir-se e virar-se e inclinar-se exatamente como se tivesse três anos de idade e tivesse algum motivo para fazê-lo. As fêmeas irão expandir suas caudas quando alarmadas por algum objeto no chão, ou às vezes quando não tiverem nada melhor para fazer e o ar estiver fresco e revigorante. A brisa fresca e revigorantevai de uma só vez às cabeças dos pavões e os influencia a serem vivazes. Um grupo de pássaros dançará junto, ou quatro ou cinco irão perseguir uns aos outros ao redor de um arbusto ou de uma árvore. Algumas vezes um pavão irá perseguir a si próprio, terminará seu frenesi dando um salto espirituoso no ar, e depois parará a perseguição como se nunca houvesse estado envolvido em tal espetáculo. Freqüentemente o macho alia o levantamento de sua cauda com o levantamento de sua voz. Ele parece receber através dos pés um choque do centro da terra, que percorre seu corpo a cima para ser então liberado: Eee-ooo-ii! Eee-ooo-ii! Ao melancólico esse som é melancólico, ao histérico é histérico. Para mim sempre soou como um grito de aplauso para um desfile invisível. A fêmea não é dada acessos desse tipo. Ela produz um som parecido com o da mula – heehaw, heehaw, aa-aawww – e o faz apenas quando necessário. No outono e no inverno, os pavões são geralmente silenciosos a não ser que os perturbem; mas na primavera e no verão, a intervalos curtos durante o dia e a noite, o macho, baixando o pescoço e jogando sua cabeça para trás, dará sete ou oito gritos sucessivamente como se essa mensagem fosse a única no planeta que necessitasse mais urgentemente ser ouvida. À noite esses chamados ganham tom mais grave e o ar por milhas ao redor é carregado deles. Um longo tempo se passou desde que deixei meus pavões fora ao anoitecer nos cedros atrás de casa. Agora quinze ou vinte ainda descansam lá. Mas o primeiro pavão macho de Eustis, Flórida, acomoda-se no topo do celeiro; o pássaro que perdeu seu pé na ceifeira senta sobre o alpendre plano perto da estrebari; há outros nas árvores próximas ao lago; vários nos carvalhos ao lado da casa; e um que não se pode dissuadir de descansar sobre a torre d’água. De todos esses lugares chamados e respostas ecoam através da noite. O pavão talvez tenha sonhos violentos. Várias vezes ele acorda e grita “Socorro! Socorro!” e então do lago e do celeiro e das árvores ao redor começa um coro adjurado:
Lee-yon Lee-yon Mee-yon mee-yon! Eee-e-yoy eee-e-yoy! Eee-e-yoy eee-e-yoy!
O dormente inquieto pode se perguntar se está acordado ou sonhando.
É difícil dizer a verdade sobre este pássaro. Os hábitos de qualquer pavão criado sozinho seriam difíceis de se notar, mas multiplicados por quarenta, eles tornam-se uma situação. Estava certa de que meus pavões todos comeriam Startena; eles também comem todo o resto. Particularmente eles comem flores. Os medos de minha mãe todos se concretizaram. Pavões não apenas comem flores, as comem sistematicamente, começam pela mais alta de uma fileira e vão descendo. Se não estiverem com fome, vão bicar as flores mesmo assim, se forem atraentes, e deixá-las cair. Em geral, para comer, eles preferem crisântemos e rosas. Quando não estão comendo flores, eles gostam de sentar sobre elas, e quando o pavão se acomoda ele vai uma hora ou outra acabar fazendo um buraco. Qualquer buraco poeirento feito por aves seria inconveniente em um canteiro de flores, mas o buraco feito pelo pavão, tendo o tamanho de uma pequena cratera, é ainda pior. Quando cava ele camufla sua imagem com a areia. Geralmente quando alguém chega com uma vassoura, não consegue enxergar nada através da nuvem de poeira e flores voando além de algumas plumas verdes e um olho, ornamentado como de contas e satisfeito. Desde o início, as relações entre esses pássaros e minha mãe foram cansativas. Ela era forçada, primeiramente, a acordar cedo e sair com sua máquina podadora para alcançar suas rosas Lady Bankshire e Herbert Hoover antes que os pavões tivessem feito seu café-da-manhã com elas; agora ela resolveu metade de seus problemas erguendo centenas de pés de arame em cercas com altura de vinte e quatro polegadas em volta dos canteiros de flores. Ela afirma que pavões não têm bom senso suficiente para pular por cima de uma cerca baixa. “Se fosse uma cerca alta”, ela diz, “eles pulariam em cima e por cima, mas não tem bom senso suficiente para pular por cima de um arame baixo.” É inútil argumentar sobre esse assunto com ela. “Não é um desafio”, eu digo para ela; mas ela está com a cabeça feita. Além de comer flores, os pavões também comem frutas, hábito este que causou a falta de cordialidade em relação a eles por parte de meu tio, que tem figueiras plantadas no local por ter ele mesmo um apetite por figos. “Tirem esse canalha daquele pé de figo!” ele rugiria, levantando-se de sua cadeira ao som de uma haste quebrando, e alguém teria de ser despachado com uma vassoura até as figueiras. Pavões também gostam de voar até os palheiros do celeiro e comer amendoins do feno de amendoim; isso não os tornou mais amáveis para nosso leiteiro. E como eles têm apreço por vegetais frescos da horta, várias vezes entram em conflito com a mulher do leiteiro. O pavão gosta de sentar-se sobre porteiras ou sobre os postes das cercas e permitir a sua cauda que fique dependurada. Um pavão sobre um poste de cerca é uma imagem soberba. Seis ou sete pavões sobre uma porteira é algo que transcende descrições; mas não é muito bom para o portão. Nossos postes de cerca tendem a ser inclinados para um lado ou para o outro e todas as nossas porteiras abrem diagonalmente. Em suma, sou a única pessoa do lugar que está disposta a garantir, com algo mais do que tolerância, a presença dos pavões. Em retribuição, sou abençoada pela rápida multiplicação deles. O número populacional que dou é quarenta, mas desde algum tempo não sinto como algo sábio fazer um censo. Já me disseram antes que pavões eram difíceis de criar. Não é verdade, ai de mim! Em Maio a pavoa acha um ninho no canto de alguma cerca e lá põe cinco ou seis ovos amarelados. Uma vez por dia, a partir de então, ela dá um abrupto hee-haa-awww! e dispara como um foguete de seu ninho. Então por meia hora, as plumas do pescoço eriçadas e ele esticado, ela desfila em volta dos locais anunciando do que é capaz. Eu a escuto com sentimentos conflitantes. Em vinte e oito dias a pavoa aparece com cinco ou seis murmurantes pavõezinhos, parecidos com mariposas. O pavão os ignora a não ser que um deles se enfie sobre seus pés (então ele bica sua cabeça até que vá para outro lugar), mas a fêmea é uma mãe vigilante e todo ano um bom número de filhotes sobrevive. Aqueles que resistem às doenças e aos predadores (o falcão, a raposa e o gambá) além do inverno parecem indestrutíveis, a não ser por violência. Um homem vendendo postes de cerca demorou-se em nossa casa um dia e me contou que tivera certa vez oitenta pavões em sua fazenda. Ele lançou um olhar nervoso sobre dois dos meus que estavam ali por perto. “Na primavera, não conseguíamos ouvir nossos próprios pensamentos,” ele disse. “Logo que você levantasse sua voz, eles levantavam as deles, se não antes. Todos nossos postes de cerca eram vacilantes. No verão eles comiam todos os tomates das hortas. Com as uvas Scuppernongs acontecia o mesmo. Minha esposa disse que cultivava suas flores para ela mesma e não iria tê-las devoradas por uma ave, independente do quão grande fosse sua cauda. E no outono eles trocavam suas plumas e as largavam por todo lugar e dava um trabalhão para limpar. Minha velha avó vivia com a gente, e ela tinha oitenta e cinco anos. Ela disse, ‘Ou vão eles , ou vou eu.’ ” “Quem foi?” eu perguntei. “Ainda temos vinte deles no freezer,” ele disse. “E como,” eu perguntei, lançando um olhar cheio de significados para os dois que estavam ali por perto, “era o gosto deles?” “Nada melhor que qualquer outra ave,” ele disse, “mas eu prefiro muito mais comê-los a ouvi-los.”
Venho tentando imaginar que o pavão que vejo sozinho a minha frente é o único que tenho, mas então um outro vem juntar-se a ele; outro voa do telhado, quatro ou cinco se chocam contra a cerca viva de murta de crepe; do lago um grita e do celeiro escuto o leiteiro denunciando outro que se meteu na comida das vacas. Minha família é dada a frases como, “Vamos encarar a verdade.” Eu não gosto de deixar meus pensamentos demorarem-se por caminhos mórbidos, mas existem vezes em que fatos tais como o preço das cercas de arame e o preço da Startena e o aumento anual descontrolado de pavões atravessam minha mente. Eu tenho tido um sonho recorrente: tenho cinco anos de idade e sou um pavão. Um fotógrafo é enviado de Nova Iorque e em celebração uma comprida mesa é posta. A comida será excepcional: eu mesma. Eu grito, “Socorro! Socorro!” e acordo. Então do lago e do celeiro e das árvores ao redor da casa, eu escuto aquele jubiloso coro começar:
Lee-yon Lee-yon Mee-yon mee-yon! Eee-e-yoy eee-e-yoy! Eee-e-yoy eee-e-yoy!
Eu pretendo permanecer firme e deixar os pavões se multiplicarem, porque tenho certeza de que, no final, a última palavra será deles.
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